quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Os Meninos Perdidos



A letargia

Quem nunca viu um cheira-cola? Garotos cujas almas são dominadas pelo vício a uma substância aparentemente tão inofensiva quanto a cola de sapateiro? Eles andam pelas ruas, a esmo, sem rumo algum. Esbarram nas pessoas, praticam furtos, passam fome largados no meio da cidade. Essas crianças crescem, mortas de fome, mortas de dignidade. Tornam-se futuros adolescentes marginais, se é que o vício já não acabou com eles antes disso. Quando não, entram em outros vícios, mais pesados, mais caros e difíceis de conseguir. Por isso, a marginalidade se torna caminho para eles.
Antigamente, só eram meninos. Parecia ser uma condição exclusiva do sexo masculino virar cheira-cola. Mas hoje, o número de meninas que "entram nessa" aumentou bastante. Vivem em bandos, alcatéias famintas e sem mente, cabeça na lua, garrafinha de cola presa nos dentes. A passos lentos, tontos, seguem entre nós, fantasmas bem vivos, ou talvez apenas meio mortos.

A estética
A cidade é tão suja quanto eles. Ou será o contrário? Tanto faz, para eles não faz, não fará diferença. Só são notados quando uma bolsa, uma carteira, some de vista, levando o dinheiro suado do cidadão. Na verdade, nem precisa sumir nada: basta que se aproximem. Por acaso ou intencionalmente, a simples visão de um só cheira-cola para que o terror se instaure em nossos ossos. É como se aquele ser mirrado, maltrapilho, sujo, fosse uma besta selvagem, a mais temível criatura urbana que poderia cruzar nosso caminho. Medo. Um medo estranho, irracional, de algo que às vezes é tão pequeno. Estranho como medo de aranha, mas daquelas aranhas translúcidas de tão pequenas.
Eles vagam como animais, às vezes solitários, às vezes em grupo. Eles vagam com animais, tão sujos quanto eles, geralmente um cão de rua, vira-lata tal e qual: doente, faminto, podre. Quando se vê um grupo desses garotos, a impressão que dá é que os animais que vão com eles são mais alegres, mais vívidos, que seus "donos". Pobre pensamento: pensar neles como donos de alguma coisa quando não são nem mesmo donos de si. Até o olhar não é deles: salta sem nexo pelo ar, busca um horizonte que não se revela, perscrutam o que não existe. Só existe neles a próxima garrafinha para encher com cola de sapateiro. Antes fossem garrafas de água mineral, como o formato delas denuncia que um dia foram. Nem mesmo o ar que respiram é deles. É da cola, só a cola. Cola neles.

A tristeza
Triste é ver que são tantos e tantos, uma soberba, ocupando os espaços das ruas e calçadas, junto com pais que tem tanta esperança quanto eles de sairem de uma vida perdida. Miséria, dor e nada além do sono, não necessariamente tranquilo e nem um pouco confortável, a servir de remédio para seus pesadelos reais de quando estão acordados. Esses meninos perdidos nunca conheceram Peter Pan. É certo que nunca vão conhecê-lo. Já perderam até aquilo que faria alguém chamá-los de meninos. São apenas cheira-colas.

Um comentário:

Caio Viana disse...

Essa postagem só me lembrou uma música: Selvagem! de Paralamas...

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