sexta-feira, 1 de julho de 2011

Minha impressão sobre mangás III

Ok, já discutimos o gênero e o mercado editorial no país de origem. Chegou a hora de esmiuçar a vida triste/feliz dessa profissão mais do que ingrata: a de autor de mangá.

O termo mangaká é normalmente usado para definir o profissional que desenha mangás. Mas também deveria ser usado para quem faz o roteiro, uma vez que as duas atividades se confundem muito. Boa parte dos mangakás são responsáveis tanto pela arte como pela história de um mangá. Uma das poucas exceções a isto é o estúdio CLAMP, formado por quatro mulheres (Ageha Ohkawa, Mokona, Tsubaki Nekoi e Satsuki Igarashi), com tarefas distribuídas entre elas.

O mercado editorial já é anormal (para nossos padrões). Era de se esperar que a vida de mangaká fosse no mínimo exótica. Vamos pegar o exemplo de três criaturas muito simpáticas deste concorrido mercado.

Kentaro Miura: autor de Berserker, trabalha nesse título desde 88. Se consideramos o lançamento do primeiro tankohon como o início da obra, já se vão 23 anos de mangá. No ano passado (ou teria sido retrasado?), o autor sumiu misteriosamente. Ninguém sabia o paradeiro de Miura e logo os boatos da morte do autor se espalharam como fogo na palha. O que aconteceu foi que Miura se excluiu do mundo porque não conseguia zerar um maldito jogo de videogame! Ele resolveu abandonar todos os compromissos para se dedicar inteiramente ao game. CA-RAM-BA! Não podia jogar em outra oportunidade, poxa? Miura, depois de seis meses de desaparecimento, apareceu com a maior cara lavada na editora e retomou seus trabalhos. Os boatos sobre a morte dele tiveram repercussão em grande parte por conta de Berserker, talvez sua obra mais famosa – e fodástica! Miura tem 45 anos. Se ele cuida da própria saúde da mesma forma como leva o mangá nos últimos anos, corremos o sério risco de ficar com um mangá inacabado por morte do autor...

Yoshihiro Togashi: autor de Yu Yu Hakusho e Hunter x Hunter. Esse é o mestre da fuleiragem. Hunter x Hunter está parado no número 27 nem sei há quanto tempo. Mas quem acompanha o trabalho desse cara já deve estar acostumado. Togashi não pode pegar uma gripe que fica seis meses sem trabalhar. Se Naoko Takeuchi, sua esposa e também mangaká, autora de Sailor Moon, ficar grávida, acho que ele deve ficar um ano sem riscar uma folha de papel. Togashi já arrumou todo tipo de desculpa para seus atrasos e interrupções, a maioria delas sobre sua saúde. Ou o cara vive doente ou é o maior enrolador do planeta! E deve ter costas quentes na editora, visto que não é de hoje esse hábito. A última saga de Yu Yu Hakusho, Makai, foi tremendamente prejudicada pelos atrasos de Togashi. Boa parte dos planos de fundo ficaram simples demais ou vazios. E o andamento da história é visivelmente mais apressado, compromentendo e muito a narrativa. Detalhe: o prejuízo já havia começado na saga anterior, Sensui, cuja parte final foi de uma simplicidade franciscana...


Nobuhiro Watsuki: autor de Rurouni Kenshin (Samurai X, no Brasil) e Buso Renkin, cuja edição nacional foi concluída recentemente. De longe, é o mais responsável dessa listinha. O que quero ilustrar com Watsuki é a vidaloka a que muitos mangakás se submetem em nome da profissão. Nada de ilegal ou (totalmente) antiético. Em muitos mangás, é comum haver um espaço em que o autor interage com os leitores. Tipo uma sessão de cartas ao contrário. No caso, só o autor se comunica, respondendo às críticas e tentando passar um pouco do processo intelectual da criação de sua obra. No caso de Watsuki, o exemplo que tenho é do mangá Buso Renkin. Era comum ele se queixar que não conduzia a história da maneira como queria. Que pensava os personagens de um jeito e eles saíam de outro nas páginas da revista. Na última edição, especificamente, Watsuki deixa uma carta de despedida para os fãs pelo final da série, onde conta que chegou a quase ter o título cancelado, que chegou a desaparecer com a equipe dele por uns dias numa estação de esqui pra desestressar... Enfim, que a rotina de trabalho de um mangaká não é nada tranquila...
E estamos falando de um cara responsável e bem-sucedido na profissão. Imaginem os outros...


Bem, vou parar por aqui. Espero que eu tenha conseguido ilustrar um pouco da carreira sinistra de mangaká.

Na próxima, vamos tratar do mercado de mangás aqui no Brasil.



Acompanhe a série:
-Minha impressão sobre mangás I (gênero)
-Minha impressão sobre mangás II (mercado editorial)


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Wesley Prado é recifense, leonino, quase jornalista e nostálgico. Lembra da queda do Muro de Berlin. Simplesmente louco por quadrinhos, RPG, livros e cinema. Criador do Caixa da Memória, mas humilde demais para querer ser chamado de deus ou papai.

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