sábado, 6 de novembro de 2010

Preconceito

Esta semana, o Twitter foi palco para mais um espetáculo de ódio aos nordestinos por parte dos paulistas. Situação semelhante a que ocorreu em agosto, após as enchentes que arrasaram Alagoas e Pernambuco. Não epóca, a polêmica foi no Orkut, graças a uma comunidade nada simpática chamada "Eu Odeio Nordestino", onde a jovem estudante de direito Júlia Schemman abriu um tópico comentando sobre a tragédia. O problema estava no fato de que ela defendia que nordestinos deveriam morrer afogados para livrar São Paulo deste grande mal que nós somos. O Twitter "lascou tudo", como se diz na nossa região, fazendo estes e outros absurdos chegarem à mídia através da hashtag #oxentesp, criada pela colega de faculdade @mandyarruda e que eu e outras pessoas ajudamos a divulgar. Logo, o assunto era matéria nos principais jornais e portais de notícias do país.

Agora, pouco mais de dois meses depois, outra onda de ódio varreu a rede social dos 140 caracteres. Mais uma vez uma estudante de direito, Mayara Petruso, que indignada pela vitória de Dilma nas eleições deste ano, postou a singela mensagem: 

"Nordestisto (sic) não é gente, faça um favor a Sp, mate um nordestino afogado!"

Na sua página no Facebook, a mesma Mayara continou  com seu "direito de expressão":

"AFUNDA BRASIL. Deem direito de voto pros nordestinos e afundem o pais de quem trabalhava pra sustentar os vagabundos que fazem filho pra ganhar o bolsa 171"

O rastilho da pólvora foi aceso e uma guerra começou no Twitter. Mais uma vez o fato ganhou a mídia. Muitos defendendo a supremacia e a importância do Sul-Sudeste e outros defendendo o valor e o respeito ao Norte-Nordeste. O conflito alcançou os trending topics com pelo menos três termos diferentes. Mayara, assim como sua "predecessora", sumiu das redes sociais. E pelas matérias que saíram com o caso, ela sumiu do mapa, nem a família a encontrava. Ela perdeu o direito de continuar estagiando num escritório de advocacia e talvez nem possa se formar.

Passada a tsunami, pensemos um pouco...

Por que ainda tem tanta gente que enxerga no nordestino o grande mal, o belzebu dos infernos a arrasar com sua qualidade de vida?

Que mal fizeram as vítimas das enchentes para os paulistas odiarem tanto eles?

E quem disse que Dilma só ganhou por conta do voto nas regiões Norte e Nordeste? Engraçado que os maiores colégios eleitorais do país ficam justamente no Sudeste... Sem contar os números que comprovam que Dilma venceria mesmo sem os votos dos "malditos" nordestinos...

E até quando esse tipo de atitude vai continuar?

Bem, para fechar o assunto, deixo aqui com vocês o ótimo texto de Miguel Rios para a coluna O Papo é Pop, editada no JC Online, sessão Lazer & Turismo.

"Preconceito dói, cabra da peste"

Foto que ilustra o texto na coluna O Papo é Pop

"Uma nova vilã, daquelas malvadas ao extremo, que dissemina e atrai ódio, de nível igual ou pior que qualquer Odete Roitman ou Nazaré Tedesco, está na mídia. É aquela garota lá do Twitter que nos ofendeu, nós nordestinos, nos indignou mais uma vez, nos fez relembrar preconceitos que pareciam estar se esvaindo, que se mostram ainda vigorosos, que machucam mesmo quem finge não ligar, quem tenta se mostrar acima.

Outra vez, doeu. Outra vez, ele voltou. Aliás, nunca se foi. Só estava mais quieto, nestes tempos de maior patrulha, de menos tolerância com os intolerantes.

Preconceito é difícil de sair da gente. Volta e meia, a gente se surpreende, se flagra, e até se orgulha, dizendo, pensando, compartilhando algum estigma contra o outro.

Mas se é na nossa pele que arde aí nos enfurece. Não pode, não se aceita, é absurdo, é opressor, ultrapassado, injusto.

A pele dos nordestinos queimou. Estigmas e estereótipos queimam mesmo.

A pele de qualquer tuiteiro do Piauí à Bahia ainda está, no mínimo, coçando. Tem aquele cara que posta dia após dia, insistente, resistente, mensagens contra a autora do ataque, sedento por não deixar barato.

"Como posso ser inferior?", pensa ele. "Sou inteligente, universitário, bonito, uso roupa boa, dentição completa, tenho laptop, carro, amigos no exterior, viajado, falo inglês, comecei no espanhol, já planejo meu MBA. Vou ter sucesso garantido! Como se pode dizer que sou inferior? Como se eu fosse um pobre qualquer, um mundiça desses, pipoca da vida, um beira-canal, que só serve para se apertar em ônibus, sujar a praia. Esse bando de assalariado farofa..."

E a roda do preconceito gira:

"Como posso ser farofa?", pensa um dos assalariados. "Ando de ônibus, moro em subúrbio, mas curto bandas legais, livros legais, filmes de arte. Tenho amigos descolados. Somos questionadores do status quo, dos padrões impostos pela sociedade de consumo. Tenho potencial. Farofa eu? Farofa e pipoca é essa negada ignorante, de gosto ruim, que curte pagode e axé, jeito marginal, enchendo o mundo com som alto de funk de CD pirata. Tenha dó!"

E gira...

"Sou negro sim, mas sou lindo! Curto o meu som e meu jeito moleque. Orgulho de raça, de gostar do que eu gosto, das raízes, de saber dançar melhor que branco. De morar onde moro. De me virar e arranjar algum para meu pai e minha mãe. Eles dois que me criaram com esforço e dignidade. Me fizeram um homem, homem mesmo. Se eu ainda fosse um desses veados safados podiam até falar. Aquilo é que é nojeira. Mas eu não tenho do que me envergonhar."

"Sexualidade não define caráter. O que eu faço na intimidade não é da conta de ninguém. Sou decente. Sou homem igual a qualquer outro. Ninguém se envergonha de estar ao meu lado. Sou másculo, não dou pinta, tenho um namorado sem trejeitos também. Não escandalizamos. Podemos frequentar qualquer ambiente. O problema são essas bichinhas afetadas, estes travestis que sujam a barra dos gays. Um horror."

Continua a girar:

"Se dou pinta é porque eu quero. Essa tropa enrustida de metidos a macho fala mal, mas faz as mesmas coisas que eu entre quatro paredes. E tem inveja do meu sucesso. Tenho jeans Diesel, perfumes Armani, óculos Roberto Cavalli. Até minhas sandálias de praia são de grife. Por isso, não me junto. Morram de inveja, bichas pobres, roupa de sulanca, classe D!"

E a roda vai girando, criando novos julgamentos, batendo neste e naquele, se aproveitando de ideias preconcebidas, crendices, rancores...

Você já teve um dia em que se assemelhou à vilã lá do Twitter, aquela babaca, estúpida, condenável, que te revoltou tanto quando jogou o ácido supercorrosivo do preconceito sobre seu orgulho? Você já destilou desprezo sobre alguém? Eu já.

Pense na fulana do Twitter, pense na queimadura, pense em como dói, pense em como cicatriza demorado.
Pense nela antes de carimbar, com raiva, agressão e afinco, loura de burra, rapaz rico de playboyzinho, negro de maloqueiro, gay de molestador devasso, gostosa de piranha, pobre de ignorante, sertanejo de atrasado, gente da capital de pedante.

Pense bem quando tua veia discriminatória, aquela que pulsa toda vez que vem o desejo de diminuir o outro pela ilusão de se autofortalecer, saltar."

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