terça-feira, 6 de março de 2012

[Psicotrópicas] Tratado Ornitológico de Arte


O bico de pavão não combinava com seu estilo. Queria ter o bico longo das pernaltas. Seria mais fácil pintar assim. Depois de terminada a tela, passou os dedos pela pintura. As cores misturavam-se, sinuosas. Odiava ter dedos magros e longos, como patas de aranha. Queria ter as mãos fortes de um urso. Mas logo desfez o muxoxo. O quadro estava quase pronto, faltava algo que ele não sabia o quê. Olhou pela janela, um céu azul de nuvens gordas e alvas, desfilando ao ritmo do vento sul. Entre elas, dançavam sinuosamente aves-do-paraíso, numa miríade de cores e formas deslumbrantes. De longe vinham misturados os cantos de rouxinóis e canários, o grito das águias e o tagarelar cortante dos corvos.

Ele via – e ouvia – a beleza que vinha de fora, mas era dentro de seu estúdio que queria buscar a verdadeira beleza. Não conseguia entender porque a sua obra permanecia incompleta. Perturbava-lhe a busca por uma beleza que viesse de si mesmo, mas que ele também pudesse contemplar. Almejava a possibilidade de ser visto, exposto desnudamente, para todos que apreciassem sua arte. Na tela, as linhas, as texturas e as formas eram suaves e harmônicas. As cores eram fortes, violentos contrastes que faziam a tela sangrar e gritar o pedido último: “Acabe-me”.

Mas como acabar aquela tela? Como fazer chegar aos olhos dos futuros admiradores uma beleza que represente tudo que há dentro do artista? A pergunta, antes martelando em sua cabeça como um ferreiro a maltratar o aço, dissolveu-se de repente. Mas é claro, a resposta era óbvia! Como bom pavão, ele nunca olhou para as próprias penas – dizem ser de mal agouro esta tentativa, haja visto o poder hipnótico delas. A cauda, aquele leque imenso e brilhante, centenas de olhos a mirar um objetivo, geralmente a indefesa fêmea, que nada pode fazer a não ser dançar os passos daquela dança narcótica.

Ele contemplou pela primeira vez a própria cauda, a beleza de um arco-íris. Chacoalhou as penas e o efeito é ampliado: o jorro de luz que saiu delas parece inundar o ambiente inteiro, rivalizando com o sol que entra pelas janelas. Percebeu que a solução para seu dilema artístico estava bem perto dele, o tempo todo. E então, começou o sacrifício.

Uma por uma, arrancou todas as penas da cauda, todas elas. E com tinta, fixou-as na tela. A pintura virou outra coisa. E a epifania começou. A cada pena arrancada, ele sentia mais e mais prazer pela proximidade de seu objetivo: a verdadeira beleza que dele emanava poderia ser transmitida ao quadro. Afinal, como não conseguir isso colocando-se tão plenamente no quadro? Depois de arrancar todas elas, arfou por vários minutos, a dor ainda intensa em seu corpo. O mesmo leque que as penas antes faziam em sua cauda estava agora na tela, misturado fimbriamente com as tintas. Vermelho-sangue, amarelo-ouro, verde-limão, azul-celeste. E outras cores tantas que, de tão misturadas, viravam outra coisa, não mais se reconheciam.

Mesmo depois de toda a dor, parecia a ele que o trabalho ainda precisava de finalização. Mas o que faltava? Pensou por muitos minutos diante da teimosa obra. Ali estava o seu esforço, a sua genialidade, o seu sangue – literalmente. Eis que quase uma hora e meia de agonia depois, ele teve um lampejo: ele deveria ser capaz de contemplar a beleza verdadeira. Mas para isso, ele teria que fazer parte dela. Ele teria que ver a aqueles que o encarariam naquele quadro. Enfim, expor-se mais do que ele já tinha feito até aquele momento. Achou seriamente que se pudesse encarar seus admiradores, ele teria o dom, a benção de conhecer a verdadeira beleza, pois estaria imerso nela e saberia, pela reação de seus admiradores, o significado de tudo aquilo. Ele era a verdadeira beleza. Mas não se conhecia. E essa brecha em sua alma fez com que tomasse uma decisão difícil e sem retorno. Deitou-se sobre a tela, inclinada levemente para o que decidira fazer, e arrancou a própria cabeça num só golpe.

Deixou-a entre as penas que já ali se encontravam. O resto de seu corpo escorreu para o chão em espasmos violentos. Sua cabeça, no entanto, jazia plácida, mirando para um infinito particular, sonhando glórias de mundos inteiros ajoelhando-se diante de sua obra em reconhecimento à beleza infinitesimal que teriam diante de si.

Lá fora, o céu começava a escurecer, os pássaros se recolhiam aos seus ninhos. E apenas à noite, a mãe do artista desceu e encontrou o filho morto. Soltou um grito que rasgou a noite e logo corvos, corujas e aves de rapina estavam a rondar a casa. Era hora do jantar e a refeição esfriava à rodo. E a mãe, coruja, tratava de cuidar do filhinho.

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