sexta-feira, 30 de março de 2012

Vai em paz, Chico

Por Rafael Martins


25 de março. 0h35 de um domingo. Abro meu e-mail e vejo que um amigo me pede para escrever sobre Chico Anysio. De imediato penso em fazer uma pesquisa mais a fundo: nome completo, cidade onde nasceu, lugares onde trabalhou...

Nada disso no entanto comporia a imagem de Chico Anysio para mim!

Então, abro o editor de texto e vou assim, na cara e na coragem, falar de alguém que eu mal conheço mas que fez parte das fases mais importantes da minha vida.

Chico Anysio foi mais que o professor de uma escolinha! Ele foi “mais” principalmente porque conseguiu, por alguns momentos, ser só isso. O Professor Raimundo era alguém comum. Mais um educador com alunos diferentes, de universos diferentes, tentando ensinar a quem às vezes não queria aprender. E com um salário, ó...

Ainda assim o programa "Escolinha do Professor Raimundo" trouxe para as mentes de meninos como eu (naquela época...) um certo humor que faltava na escola. Um certo olhar crítico de quem pergunta com malícia e responde com sarcasmo para fazer rir. Um professor que ensinava aquilo que todos nascem sabendo e que alguns fazem questão de  esquecer. Um professor que ensinava como sorrir!

Mas Chico Anysio não era só o Professor Raimundo! Quem nunca disse a alguém que “jovem é outro papo” (isso fez sucesso até quando ninguém mais falava “papo”!)? Quem nunca ouviu dos pais um “É mentira Terta?” ao que se respondia “Verdade!”? Quem nunca olhou desconfiado para a tela (eu era ainda menino pequeno e me assustava com tudo que lembrasse um monstro) e ficou nervoso com Bento Carneiro, o VAMPIRO Brasileiro (tive medo, sem saber que aquele vampiro era quem dava sangue para que nós ríssemos)? Não,  Chico Anysio não foi só o Professor Raimundo!

Eu estava no trabalho quando a notícia chegou, “Morre o humorista  Chico Anysio”. Assim, sem mais nem menos. E eu lembro de pensar que naquele momento o Brasil seria um lugarzinho mais triste, que o próprio mundo havia perdido um pouquinho de cor. A morte não foi justa com Chico Anysio! Alguém que era tantos não deveria morrer uma vez só!

Chico era desse tipo (e olha que eu nunca sequer o vi pessoalmente pra dizer, mas tô aqui dizendo) que não se encontra em cada esquina, mas que se você procurasse bem e juntasse um pouquinho de cada esquina em que procurasse, encontraria um Chico completo.

Vou parar por aqui. Não quero chorar. Não seria justo chorar agora, aos 45 do segundo tempo, por alguém que me fez rir o jogo todo. Vou formatar o texto para envio e pensar em outra coisa (quem sabe até rir de alguma coisa). Afinal, Chico Anysio morreu, mas deixou vivos (ao menos em mim) uma infinidade de Chicos Anysios que nunca me perdoariam se eu chorasse.

Vai em paz meu velho. Se sua hora chegou é que Deus deve ter achado que o céu tava meio sem graça. Vai em paz. Obrigado e Boa sorte...


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Rafael Martins, mais conhecido entre os amigos como "O Doido", teve a infância que a infância de hoje merecia - e não tem. Corria, pulava e aprontava todo santo dia. É do tipo que serrava o gesso antes de regenerar a fratura. Sonhador por vocação, prefere uma mentira que faça rir a uma verdade que faça chorar, assim como o vento em seu rosto e nenhum chão sob seus pés. E é o amigo mais leal que um sujeito pode ter.


[Sim, ele confiou a minha pessoa o textículo de apresentação dele. Algum problema? :) ]


PS: o texto atrasou por culpa minha, que não fechei logo a edição. Peço desculpas, tanto a Martins como aos leitores do Caixa da Memória.

2 comentários:

Micarla X. disse...

Um dos textos mais lindos sobre Chico. Bem escrito, puro, sensível e sincero... Parabéns por isso e por tantas outras qualidades.

Wesley Prado disse...

Micarla, só não seja injusta com o autor: o texto é de um grande amigo, Rafael Martins. Quinze anos de amizade e boas discussões. Se alguém merece o crédito, é ele. ;)

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