sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Herói Nerd?

Com seis indicações ao Globo de Ouro, filme de David Fincher sobre o "CEO, bitch!" do Facebook tem tudo para ser o melhor filme do ano.




Em 2004, surgia no Brasil uma mania da internet que já vinha dominando o mundo, o Orkut. O site, de layout roxo bebê, vinha com uma proposta nova (?) de interação digital, batizada de rede social. O conceito era simples: dividir informações, experiências e conteúdos com pessoas, a princípio, do seu círculo social e, a medida que sua rede vai crescendo, conhecer mais pessoas, que darão continuidade (assim como você) ao ciclo de compartilhamento. Simples, não? É bem mais no que se refere a experiência prática no assunto. Mas em 2004, redes sociais eram a esfinge que guardava o futuro das relações na internet. Todo mundo entendia o conceito rapidinho, mas ninguém era capaz de prever até onde aquele troço podia chegar.


Zuckerberg na capa da Time e Saverin na real: os pais do Facebook
Naquele mesmo ano, surgiu também aquela que seria a principal concorrente do Orkut e, mais para frente, o sinônimo de rede social no mundo inteiro: o Facebook. A criação de um jovem nerd de Harvard revolucionou o mundo digital, as relações interpessoais, a noção de privacidade, o marketing... Enfim, mexeu com as estruturas pré-estabelecidas. Mark Zuckerberg, o pai do Facebook, chega em 2010 com alguns bilhões no bolso, ganha a capa da Time de dezembro como o homem mais influente do ano e ainda tem uma cinebiografia que conquistou o mundo pela sua qualidade fílmica. Sua história - ou melhor, a do Facebook - é contada em A Rede Social, um dos filmes mais aguardados desta temporada e que, sem dúvidas, figurará na maioria dos top 10 deste ano.

David Fincher, diretor desta pérola, tem no currículo outros clássicos como Seven e Clube da Luta (tá, ele também tem a tosqueira O Curioso Caso de Benjamim Button...). Em A Rede Social, ele dá show, mas convenhamos, sem grande trabalho. O roteiro é cativante desde as primeiras cenas e vai conduzindo o espectador a uma viagem irreversível a um mundo de intrigas, onde amizade não vale nada e apenas o milhão - seja de usuários, seja de dólares - é o que importa. O elenco também ajudou Fincher demais.



Saverin (Andrew Garfield) e Zuckerberg (Jesse Eisenberg): doidos pra pegar geral!
Jesse Eisenberg incorpora muito bem o típico nerd de computação, antissocial, meio freak, hiperfocado e louco pra se dar bem com meninas. Acrescente a isso arrogância e ambição desproporcionais ao estereótipo e teremos um monstrinho chamado Zuckerberg. Do outro lado da briga*, Andrew Garfield (que já apareceu por aqui em outro post, com um visual beeem diferente) vive Eduardo Saverin, brasileiro que foi coleguinha de Zuckerberg em Havard, ajudou a criar o Facebook e depois rompeu a sociedade por pilantragens no seu controle acionário. Garfield faz um típico brazuca rico sem cair no escracho e nem na tétrade simbólogica brasileira futebol+samba+mulata+marginalidade. Ele prefere uma noitada regada à cerveja na companhia de alguma gatinha do que perder a noite com algoritmos e mais algoritmos (mas ainda assim, um estudante exemplar). Até mesmo o almofadinha do Justin Timberlake, ex-membro de boy band e cantor pop de sucesso, mostrou um talento inesperado para interpretar outra figura famosa do reino dos bits e bytes, o tal Sean Parker, co-criador do Napster, site que tirou onda com a indústria fonográfica em meados de 1999, ao permitir troca gratuita de músicas entre usuários.


Sean Parker na real: feio que dói; Timberlake pra ele já foi um honra
Bem, falei de roteiro, de elenco... Mas teve uma coisa em A Rede Social que eu simplesmente não achei que seria tão marcante: trilha sonora. Tá certo que eu já fui na expectativa de algo interessante, pois sabia que o a trilha era assinada por Trent Reznor, do Nine Inch Nails, em parceria com Atticus Ross, que trabalhou nos últimos quatro álbuns da banda. Só podia dar coisa boa. Mas nunca, nem a pau, imaginava que a trilha ficaria tão do caralho massa como ficou!
Sério, o clima dark da trilha combina demais com o do filme, sempre num tom de cinza (meio caindo pro preto, vá lá), cheio de intriga, de desconfiança e de ambiguidade. O engraçado é que a mesma trilha de Reznor e Ross ficaria perfeita num filme de ficção científica pelo seu estilão cyberpunk, mas cabe como uma luva em A Rede Social -  também pudera, quer algo mais cyberpunk do que um filme contando a origem de uma das redes sociais de maior sucesso no mundo???


Do Lado Negro da força Zuckerberg está?
Nerd Exemplar (?) - o filme, teoricamente, é sobre o Facebook, mas a estrela fica com Zuckerberg, fato. Ele não é o milionário mais jovem do mundo à toa. O problema talvez seja que Zuckerberg não chega bem a ser um herói. Ele trapaceia, passa por cima de decisões com o sócio, faz o que dá na telha pela sua criação... No fim da contas, nem pra anti-herói o desgraçado serve. Ao menos o anti-herói faria coisas boas, de forma duvidosa. Ele não: tudo que fez foi para ganho próprio, para ver seu tão polêmico site na estratosfera da internet. O filme ainda deixa no ar suspeitas de jogadas ainda piores do senhor homem do ano da Time, que não vou contar pra não tirar a graça de quem ainda não assistiu. Herói nerd? Hum... Nerd sim. O resto, fica a critério do espectador...


Fator Adaptação - A Rede Social, apesar de todos os méritos, não podia ser perfeito. É baseado na livro Bilionários por Acaso - A Criação do Facebook, que infelizmente não contém uma fala de Zuckerberg - ele teria se negado a conceder entrevista ao autor Ben Mezrich. Saverin foi uma das fontes mais importantes do livro, e ficar só com a visão de um lado da história é algo complicado. O filme se contamina com isso e mostra um Zuck facilmente odiável, enquanto Saverin é um tolo que confiava demais no (ex-)amigo. Além disso, algumas escolhas na condução do roteiro foram esquisitas e arriscadas. A cena de abertura, por exemplo: Jesse Einsenberg fala aos borbotões, um legítimo locutor de rádio, trocando de assunto a cada três, quatro frases, e se referindo, seja por termos ou temática, a coisas que pertencem a cultura acadêmica dos EUA (quem já ouviu falar de final clubs, levanta o braço aí...). A conversa com a namorada que termina em desastre é coisa de dar nó na cabeça! Poucos minutos depois, quando Zuck está amargando o fim do namoro criando o FaceSmash, a semente arruaceira do Facebook, vemos uma série de termos de computação, numa avalanche tão grande que, a menos que o espectador seja estudante de Computação, não vai absorver metade do que foi dito. Ainda bem que, com o passar da fita, esses detalhes não se repetem com a mesma intesidade.



Zuck seguindo (maus) conselhos...
Logout - Tirando essas picuinhas, A Rede Social é um filmaço. Tem seis indicações ao Globo de Ouro (filme de drama, ator (Jesse Eisenberg), roteiro (Aaron Sorkin), diretor, ator coadjuvante (Andrew Garfield) e trilha original) e tudo indica que vá receber indicações também para o Oscar. Para um filme relativamente simples, A Rede Social bem que rendeu... Só no final de semana de estreia, nos EUA, arrecadou quase U$22,5 milhões. Quem diria que um filme sobre um nerd e sua vingancinha contra a ex faria tanto sucesso.


EXTRAS
-Confira o depoimento de Eduardo Saverin sobre o filme
-Realidade x Ficção: as verdades de A Rede Social


A Rede Social
NOTA: 9,5/10


- x - x - x -


*A gota d'água, segundo o filme, foi porque Zuckerberg teria diluído as ações de Saverin para redistribuí-las entre os outros acionistas, dentre os quais Sean Parker, aquele do Napster. Saverin, que antes da manobra tinha 30 e poucos porcento do controle do Facebook, foi rebaixado a 0,031%. Bacana, né?


-Meus comentários se baseiam mais no filme do que na vida real. Por isso, se você for um daqueles que sabe TODOS os detalhes da vida de Zuckerberg, Saverin e outras figuras envolvidas na criação/desenvolvimento do Facebook, favor, não me encher o saco com coisas do tipo "ei, mas isso que você falou não é verdade", ok? Thanks.

Um comentário:

Caio Viana disse...

Ainda não vi, mas to liagdo que é do caralho! Porém chamá-lo de melhor filme do ano, discordo! Essa posição já é ocupada por A Origem!!!!!!!!!!!!!!

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