terça-feira, 1 de março de 2011

Coisas Mofadas

Tal qual o cinema, a música parece ter aderido ao fenômeno dos remakes. Diferentemente da 7º arte, onde a lógica é refilmar o que fez sucesso no passado, na expectativa de mais uma vez lucrar com aquele título, a música segue um caminho ainda mais viciado e desnecessário: trazer do além-túmulo artistas que já tiveram sua vez no show business.

A estratégia é simples. Músico/grupo que fez sucesso no passado retorna em turnê, mostrando novo trabalho após anos de obscuro silêncio. Faz shows nas cidades mais corriqueiras, aquelas em que jamais ele tocaria normalmente, exceto pela graça divina em resposta às preces dos fãs mais lisos de lá. Seu setlist, na maioria das vezes, é carregado de clássicos, afinal, suas músicas novas são desconhecidas ou, ainda pior, desprezadas. E mesmo decadente, milhares de fãs entopem o local do show, pagando valores muitas vezes superdimensionados para ver o restolho de seu ídolo da juventude.

O grande problema do remake na música é que muitos desses artistas tiveram sim sua importância, mas na época em que eles fizeram sucesso. Deslocados de seu momento, ainda agarrados ao passado glorioso, repetem fórmulas e atitudes, como se não dessem conta do papel ridículo que fazem, tais quais animais velhos de zoológico, que já não entretem diante da perda de seu vigor. Não estou me referindo ao envelhecimento físico aqui, mas do envelhecimento artístico, que nem sempre significa uma maturidade de trabalho. Vejamos alguns exemplos.



A RPM, que também poderia se chamar Turma do Paulo Ricardo, já tentou mais de uma vez o seu retorno - e rumores já falam em nova tentativa este ano - queimando as cordas da guitarra com hits batidões que fazem parte da memória afetiva de qualquer trintão ou quarentão de hoje. Músicas como "Olhar 43", "Alvorada Voraz" e "Rádio Pirata" fizeram a cabeça de muitos jovens nos anos 80, mas agora, soam como sinal de velhice, com seus sintetizadores em máxima potência. O estilo enlouquecia as menininhas e fazia marmanjões se fantasiarem de Paulo Ricardo pra se sentirem gostosões, nos tempos em que ombreira e mullet ainda estavam na moda. Transportados para as décadas seguintes, Paulo Ricardo e sua trupe tentam se reciclar e acabam virando palhaços em busca de algo moderno, mas que eles não sabem fazer. Imagina algo como se o RPM enveredasse pelo emocore e você terá uma mínima ideia do que estou falando.



Sucesso na década de 90, numa época que até o que era ruim na MTV ainda era assistível, os Backstreet Boys voltaram com uma turnê de nome sugestivo, This Is Us (Isto Somos Nós), onde cantam os milhares de clássicos que levavam garotas à histeria em todos os continentes. As pegadas melosas, as dancinhas mega coreografadas, tudo está lá, exceto por um dos integrantes, Kevin, que caiu fora do barco por motivos pessoais. Engraçado é que estão com CD novo na praça... Alguém ouviu falar? Claro que não. Porque a fase boyband já acabou há tempos, ninguém quer mais saber disso. Os correspondentes mais próximos desse tipo de banda são as tais "coloridas", não pela música, mas pelo estilo "bandinha montada para vender". Os BSB se apresentaram no Recife no último dia 18 de fevereiro para uma plateia de "meninas" beirando os 30 anos... Como se fossem micos de realejo roubando as carteiras de quem para para ver.



Cannabis music. Assim poderíamos chamar o Planet Hemp na década de 90. A banda sustentava a rebeldia adolescente louca pelo seu primeiro base, como se fumar maconha fosse o gesto político máximo que um jovem entre os 14 e 18 anos fosse capaz de fazer. Foram muitos shows - interrompidos pela polícia - só pela apologia à erva maldita. Nunca gostei da banda, mas na época eu até entendia toda a rebeldia envolvida na postura da banda. Mas agora, com Marcelo D2 tendo mudado da água para o vinho na sua carreira solo, qual o sentido da Planet Hemp voltar com uma proposta que nem choca mais tanto assim? A menos que eles venham com uma revolução no próprio estilo, será mais um bando de tiozões brincando de emular os velhos tempos.

O cheiro de mofo dessas e outras bandas vem sendo disfarçado com essas turnês de retorno sebosas, em que milhares de fãs das antigas se descabelam para ver artistas cansados, fora de seu tempo e (quase) sem noção do ridículo. Tudo porque ao invés de tentarem seguir novos caminhos, se enfurnam em estratégias puramente comerciais para, pouco depois, cair novamente no esquecimento. Aí, quando o liseu bater de novo, se reunem, ensaiam aquelas músicas "fáceis" e anunciam nova turnê, novo álbum, nova formação (necessária quando os integrantes já não se bicam mais ou para casos mais graves, como morte, dependência química, invalidez e abdução)... Tudo novo. Menos a banda. Menos os fãs.

2 comentários:

Talita disse...

"... às preces dos fãs mais lisos..."
"... pagando valores muitas vezes superdimensionados ..."

Ou um ou outro, não?
Bom, discordo de boa quando o assunto é o show de BSB. Os caras não acabaram, como o RPM, ou chutaram o mundo, como Planet Hemp. É uma banda que nunca acabou e que sobrevive, sim, do que era antes. Neste caso, tu poderias ter trazido, sei lá, Roupa Nova, como um exemplo do que o BSB faz.
Falei desde o início, quando assumi que ia ao show, que não ia ver uma boy band, mas "a" boy band que embalou meu início de adolescência. E é isso a que eles se propõem, e é com esse intuito que grande parte das "meninas (E MENINOS) beirando os 30 anos", assim como eu, assistiu a pouco menos de 2 horas de show, pagando 240 reais por um frontstage lotado. Um preço válido, um show bacana, os caras cantam mesmo, dançam também e nos fazem recordar o que éramos ha 13 anos.

Mas não discordo de você de todo. Quando o assunto é dinheiro, te trago uma novidade e, esta sim, acho que cabe bem no papel de "micos de realejo". Se chama soundcheck (ou Meet & Great). Meninas que pagam até mil reais por uma foto com um dos quatro integrantes. Sobre esta parte da história, a gente conversa...

Wesley Prado disse...

Tali, primeiro, muito obrigado pela tua visita. Nunca soube se tu conferia ou não meu blog - e sabia que tu ou Kalline, no mínimo, iam comentar a respeito de BSB. =P

Bem, quanto a parte que tu citou no início do comentário, é o seguinte: I)lisos, pois se não o fossem, não teriam que esperar "séculos" pela vinda dessas bandas. Poderiam simplesmente juntar um "trocado" e se mandar pra SP/RJ curtir os shows quando bandas internacionais como BSB ainda estão no auge. II)valores superdimensionados, pois esses, mesmo que mais baixos que SP/RJ, ainda são absurdos, especialmente para nossa realidade. Em muitos casos, pessoas se submetem a esses preços sem pestanejar, inclusive se ferrando na mão de cambistas safados.

E quanto a proposta deles... Qual a diferença de qualquer "banda mofada"? Eles vivem do estupendo sucesso que construíram nos anos 90. Não pararam, beleza, mas quem são eles agora? Se não fossem pelas trocentas fãs como tu, Kalline e outras, o que seria da turnê deles? Um vazio total.
E quando só usei meninas no texto, me referi ao tempo glorioso da banda, onde, querendo ou não, o público era essencialmente feminino.

Eu tava ligado nesse Meet & Great. Vi isso no perfil de alguém pelas redes sociais da vida (deve ter sido até o teu, mas nem lembro...). Um absurdo oportunista.

No mais, novamente muito obrigado pela visita, irmã! Tás no meu core, visse?

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