terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

[Psicotrópicas] Porta Aberta

Ele rodou o trinco e fez uma careta de agonia com o som enferrujado que o mecanismo fez. Empurrou a porta um pouco, e só alguns segundos depois de tê-la aberto e olhar para o escuro do interior, tomou ciência de que a porta estava aberta, nenhuma barreira o deixaria do lado de fora. Estranhou e até pensou no que poderia aguardá-lo lá dentro, tão escuro. "Não estava trancado... Esquisito, não vem ninguém aqui há séculos...", pensou. E ele estava certo, ninguém aparecia naquela casa velha que um dia fora sua e hoje jaz num passado obscuro. Seu passado.


Não entendia aquele vago mistério. Mas tomou coragem para entrar. Puxou o ar para o fundo dos pulmões, esticou a perna direita e deu o primeiro passo naquela escuridão terrível, afastando a porta mais um pouco para trás. Acendeu o isqueiro - objeto que só possuía consigo por causa do maldito vício do cigarro - e iluminou um pouco aquelas trevas familiares. Olhou ao redor e viu velhas lembranças passarem como vultos imprecisos.

Num canto, percebeu a velha cadeira de balanço, onde a avó tanto descansara, no vai e vem de um moto-perpétuo quase perfeito. Muitas vezes dormiu no colo dela, tendo os cabelos acariciados por ela, o que dava a ele um sono tão grande... Agora, a cadeira balançava trôpega, rangendo como um diabo, graças ao vento gélido e solitário que entrava pela porta aberta e invadia a casa inteira. Adentrou pelo labirinto de memórias que aquele lugar era e alcançou um dos quartos. Nem tinha mais porta, alguém a arrancou de lá. Notou no canto direito uma velha escrivaninha, toda carcomida pelo tempo e pela culpa, onde o pai estudava as notícias dos jornais e as pastas de processos, enormes barreiras que o afastavam dele. Não havia mais nada no quarto além daquela velha escrivaninha, aos pedaços, como seu coração.

Saiu dali e chegou a cozinha quase que por instinto. Era lá que podia ver a mãe, sempre cuidando para que tudo estivesse no seu devido lugar, funcionando... Era para ela que corria, com os braços abertos e doidos para dar aquele abraço gentil e carinhoso. Talvez, ele precissase dela como nunca, para que sua vida estivesse no lugar, funcionando. Hoje, a cozinha era apenas um borrão, manchada de uma água escura, lama negríssima. Vários azulejos já haviam descolado das paredes e algumas rachaduras também envelheciam o lugar.

E ele foi passando assim, de cômodo em cômodo, verificando velhas imagens do seu imaginário, revivendo vastas emoções que havia deixado no passado, mas que nunca tivera coragem de trazer de volta.

E tudo porque? Uma raiva que o carcomia como veneno correndo em suas veias. Um sentimento negro que o passado marcara em suas lembranças, com uma chama mais quente que o próprio inferno. Viu sua família extinguir-se aos poucos, como um paciente terminal que sabe já ter perdido a batalha para a doença fatal. Um a um, eles foram desaparecendo, destruindo-se mutuamente, todos os dias. O pai o ignorava tristemente, sempre afeito às coisas da sua tão nobre profissão: juiz de direito! A mãe, embora amorosa, nunca tivera tempo de verdade para ele, estando sempre ocupada; e quando o procurava, era para desabafar, esquecer os próprios problemas, como se ignorasse que o filho tivesse os dele também.

Ainda tinha sua irmã, sua avó, e até mesmo um tio que morava de favor, embora tivesse um emprego seguro numa repartição pública...


Tanta gente morando junta, e todas se foram, exceto ele. Que sobreviveu a brigas, perdas terríveis, verdades sujas... Tantas coisas que até mesmo a casa, tão bela antigamente, não agüentou e virou um mausóleu que guarda as mais pesadas trevas de seu coração. 

Hoje, no meio de tantas sombras, a única luz que vinha, fora a do seu isqueiro, entrava pela porta aberta, como se a convidasse para purificar o lugar. E pouco antes das 17h, olhou para um canto da sala e viu uma coisa que não percebera ao entrar: uma moldura. Jogada displicentemente, um acidente no meio daquela paisagem.

Ele caminhou até o lugar onde estava a moldura, pegou-a com a mão que estava livre, e sentiu-se envolvido por fantasmas: a foto, "a mais rara de todas as fotos", pensou ele, era a única que tinha toda a família reunida. Seus pais, seus avós, sua irmã, alguns tios, primos... Todos ali, sorrindo, numa harmonia que lhe parecia tão anormal... Não entendeu se vira uma miragem ou a própria tumba de Tutancâmon. Era sonho, a infância que ele tanto queria. Ou pelo menos, a que ele não conseguia mais lembrar, de tanto amargor que sentira. E o garoto de cabelos negros, com uma janelinha nos dentes, camisa listrada de verde, nos braços dos pais, olhava para o observador da foto e fazia um gesto: era um chamado. O garoto era ele mesmo; ele se via, chamando a si com os braços, agitado. Chorou abraçado àquela foto, sentindo o calor de seus entes queridos que havia detestado tanto quando mais novo, e hoje se via arrependido por aquele sentimento tão desigual. Chorou como uma criança manhosa que precisa de colo. Sentiu falta de tudo e todos. Sentiu falta dele mesmo. Depois daquela visão, ele olhou uma última vez para a porta, a luz ficando cinza com o fim da tarde. Apagou o isqueiro, e um vento forte, vindo sabe-se lá de onde, trouxe a escuridão, fechando a porta.

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