sexta-feira, 20 de maio de 2011

[Deu no Jornal] A melancolia segundo Von Trier

Texto publicado na edição desta quinta (19/05/11) do Jornal do Commercio

POLÊMICA Na apresentação de seu novo filme, em Cannes, cineasta diz que tem simpatia pelo nazismo e por Hitler


Ernesto Barros (ebarros@jc.com.br) - enviado especial

CANNES – Ao chegar no seu oitavo dia com a exibição de Melancholia, o aguardado novo filme do dinamarquês Lars von Trier, o Festival de Cannes continua ainda sem um grande favorito. Mas, quando o diretor entra em cena, o cenário muda completamente. Ontem não foi diferente durante coletiva de imprensa para jornalistas de todo o mundo: o enfant terrible deu seu show particular em Cannes, embora ninguém o levasse a sério. Na resposta de uma pergunta sobre suas raízes germânicas, ele disse que era nazista, compreendia Hitler e especulou que seu próximo filme seria A solução final. No fim do dia acabou pedindo desculpas.

Von Trier disse que por muito tempo pensou que era judeu e que era feliz sendo judeu. “Então encontrei Susanne Bier (diretora dinamarquesa e judia) e não estava tão feliz. Me descobri nazista. Minha família é alemã e isso também me deu algum prazer. O que posso dizer? Compreendo Hitler, simpatizo um pouco com ele”, consternou a plateia e as atrizes Charlotte Gainsbourg e Kirsten Dunst, sentadas a seu lado.

E continuou no mesmo tom: “Isso não quer dizer que sou a favor da Segunda Guerra Mundial e que sou contra os judeus ou mesmo de Susanne Bier. De fato, sou a favor de todos eles, todos os judeus. Bem, Israel é um pé no saco”, disse. Sem papas na língua, Von Trier disse ainda que deseja fazer um filme pornô com as duas atrizes: “Será algo em torno de três a quatro horas de sexo desconfortável”, finalizou.

Como ninguém parecia levá-lo a sério, já que cada resposta só tirava gargalhadas dos juízes, Von Trier foi além ao responder a uma pergunta sobre se gostaria de fazer um filme grandioso: “Claro. Nós, os nazistas, gostamos de fazer coisas em larga escala. Talvez eu pudesse fazer A solução final”, arrematou.

No fim do dia, o cineasta emitiu uma nota se desculpando: “Se eu magoei alguém nessa manhã com as palavras que disse durante a coletiva, sinceramente peço desculpas. Eu não sou antissemita ou tenho qualquer tipo de preconceito racial, nem sou um nazista”.

Apesar de haver tido recepção um tanto morna, Melancholia mereceu todo o respeito da crítica. Mesmo com o diretor fazendo comentários contra o próprio filme. Certamente não tem o mesmo impacto de Os idiotas e Dançando no escuro, que deu a Palma de Ouro ao diretor em 2000. Entre as grandes promessas do festival só resta agora La piel que habito, de Pedro Almodóvar, que é exibido hoje na Seleção Oficial.
Melancholia tem um prólogo no mínimo maravilhoso. Uma sequência de imagens enigmáticas – apresentadas em câmera lentíssima e embaladas com trecho da ópera Tristão e Isolda, de Richard Wagner –, cuja predominância do verde leva a resultados próximos da pintura. A seguir, a história inicia-se com uma curiosa cena na qual uma limusine não consegue fazer uma curva numa estrada no campo.

No carro, um casal de noivos. Justine (Kirsten Dunst) acaba de casar e vai encontrar a família na fantástica casa da irmã Claire (Charlotte Gainsbourg). Só que a festa vai terminar no maior baixo astral, já que Justine está em depressão. Quando fica só com o noivo, ela dá uma desculpa e sai do quarto para logo depois fazer sexo com um desconhecido ao ar livre.

Von Trier conduz seu filme em dois movimentos. No segundo sai Justine e entra Claire. Casada, ela é dominadora, o oposto da irmã. Foi o rico marido dela (Kiefer Sutherland), quem bancou a festa. A família e o casamento – nem mesmo as pessoas – não são instituições muito queridas por Von Trier.

Todo esse mal-estar e o caos que tomam a vida das duas irmãs – e do mundo, por extensão, apesar da ação estar circunscrita a um único ambiente – chama-se Melancholia, nome de um planeta misterioso, que surgiu atrás do Sol e se encaminha em direção à Terra. Ao contrário de um filme hollywoodiano, no qual veríamos os países e a mídia em alerta, no filme de Von Trier a notícia só afeta cinco pessoas e olhe lá.

Na coletiva, ele foi rápido em tentar explicar o significado de Melancholia: “Não quis fazer um filme sobre o fim do mundo, mas sobre meu estado mental. Tive recentemente momentos melancólicos sérios na minha vida. Estou feliz por estar aqui”, disse. No fim, os fotógrafos se aproximaram dele ainda mais para clicar sua mão direita fechada na qual dava para ler a palavra fuck escrita em seus dedos.

SAIBA MAIS

Língua afiada
Em 2009, o cineasta dinamarquês Lars von Trier também causou frisson na Riviera com seu longa-metragem Anticristo. Mais uma vez com a língua afiada, o diretor disse à imprensa que o filme “foi feito com aproximadamente 50% da minha inteligência habitual”.

Sem desculpas
Ainda em Cannes 2009, um jornalista inglês exigiu aos berros: “O senhor veio a Cannes, um festival de cinema, nós vimos o filme e acho que o senhor tem a obrigação de explicar o porquê de tê-lo feito”. Von Trier respondeu: “Não vou pedir desculpas”.

Melhor do mundo
Para confirmar que não são de hoje as polêmicas de Von Trier em Cannes, em 2009 ele ainda saiu com essa pérola: “Eu faço filmes para mim mesmo, sem pensar na plateia. Ah, sim, e eu sou o melhor diretor de cinema do mundo”.


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