terça-feira, 10 de maio de 2011

[Psicotrópicas] Em nome da arte

As cinzas dos últimos cigarros se acumulavam no cinzeiro, formando uma massa escura e fedorenta que talvez ganhasse vida a qualquer momento. A luz da única lâmpada acesa era pálida e fugaz, graças a névoa de nicotina que se formara nas últimas três horas de agonia. Ela tinha que acabar tudo em poucos mais de duas horas e não tinha nada a oferecer. Nada. Seu prazo estava praticamente esgotado. Era o fim. Como se safaria? Qual a desculpa esfarrapada lançaria desta vez ao editor? “Desculpe, mas ainda não bateu inspiração pra escrever o livro, fica pra semana que vem, ok?”. Óbvio que não! Ele sabia que seu editor não daria sequer mais um milionésimo de segundo se ele pedisse, era demais depois dos dois folgados anos que recebeu para escrever um novo livro quando renovou contrato.

-Vou te dar um tempo bem grande, dois anos tá bom?

Jamais pensou que iria chegar a aquele ponto, quase 8 meses de atraso, terrível, terrível, pensava ele enquanto acendia mais um cigarro. Começou a pensar mirabolâncias, chegando até a culpar o cigarro, todos os que fumou nestes quase três anos, pelo seu atraso e irresponsabilidade.

-Escuta aqui, meu chapa, não tô mais com paciência pro teu caso. Ou você conclui o trabalho até segunda ou considere seu contrato dilacerado em finíssimas tiras, ouviu?

As duras palavras do editor ganiam em seus ouvidos, ameaçadoras. Não havia nada pior que perder um contrato desses, tão vantajoso. E pior, sendo o editor um amigo de infância… Talvez ele até desse mais algum prazo, em nome dos velhos tempos… Quié isso, o cara jamais iria perdoá-lo se aparecesse no seu escritório pedindo por mais tempo. “-Segunda, ouviu bem? Segunda ou adeus contrato!”.

Rabisca, rabisca, rabisca e nada. Nada que preste no papel. Aliás, estranha um escritor profissional ainda usar papel e grafite, não? Bem, isso para ele nunca foi problema, sempre gostou de escrever assim, no papel, abominando até a máquina de escrever. Um editor de texto, tipo Word, ele nem sabe o que é. Prefere ouvir o rabiscar incessante, como um sinal de que seus escritos estão ali, vivos, a agonia da vida no som do atrito entre grafite e papel. E embora estejam pensando que o seu atraso se deu por esse hábito, essa é a primeira vez que perdia um prazo de forma tão desleixada. O que escrever, caramba? “Tenho que correr ou perco meu dinheiro!” Aliás, contava com o dinheiro que receberia por esse livro para terminar de pagar o apartamento novo que comprara no último verão, à beira mar, voltado para a nascente, 3 quartos, 1 suíte, mais de 250m², um paraíso, e que custara uma fortuna, esta paga com um bocado da poupança, renda acumulada das vendas dos seus três últimos trabalhos. Se perdesse o contrato, ficaria devendo o apartamento, enganaria a mulher a princípio, mas logo ela o escancharia pela besteira que fez, e depois acabariam fora do paraíso, como Adão e Eva, só que desta vez, quem fez a merda foi Adão.

Melhor não pensar nisso. O livro, pense no livro… Mas como acabar um livro, que nem está na metade, só tendo duas horas pra isso? Pensou, pensou, até que o pensamento escapou de novo para ela, atrás de visão mais maravilhosa que ele já teve na vida. Soraya. Uma negra baiana que conheceu num verão desses, perdido pelas areias de Copa, em algum momento desses dois anos passados. Soraya, mulher linda, cabelos longos trançados como maliciosas serpentes, os seios volumosos, coxas grossas capazes de dobrar qualquer homem… Ai, meu Deus, o livro! Pense no livro, no livro, homem de Deus! Mas, nesse momento de aflição, Soraya causava-lhe uma anestesia geral, tão necessária aos seus nervos que ele acaba se perdendo nela. Lembrou do dia em que se conheceram, por acaso, em Copacabana, no quiosque onde tomaram água de coco e conversaram baboseiras sem fins. Então, no outro dia, coincidentemente, eles estavam lá, no mesmo quiosque, num fim de tarde dois anos atrás. Só que desta vez, conversa vai, conversa vem, e ele terminou indo ao apê dela, apenas para tomar uns drinques… Claro que no outro dia teve problemas com a mulher, que desculpa daria por ter passado a noite fora, sem aviso ou justificativa? Sabe-se lá como, conseguiu domar a fera de sua mulher e continuar casado e feliz.

Feliz, porém não inteiramente. Soraya desfilava em frente aos seu olhos, dançando alguma coisa exótica do Oriente, parecida com dança do ventre, enquanto ele se olhava no espelho e escovava os dentes. No café, o pão tinha o gosto dela, o café cheirava a ela e o doce que ele mordiscava antes de sair de casa lembrava o bico do seio dela. A fixação foi tanta que quase fez a besteira, duas vezes, de chamar a esposa pelo nome da outra, se é que Soraya podia ser chamada de outra já a essa altura. Duas semanas depois, tomou coragem e se expôs: apareceu no apartamento dela, sem pedir licença, sem ligar avisando de sua ida, nada.
(Aliás, não tinha como ligar avisando, pois não tinha o telefone dela. Sortilégios de de Soraya...)

Duas, três batidas na porta e nada. Alguns segundos depois, abre-se a porta. Soraya, de toalha, simplesmente diz “Oi!”. Ele nem responde: abre a porta, agarra aquela perfeição negra e beija-lhe, como se o beijo o alimentasse. O resto nem preciso dizer, não é mesmo?

Pois assim se fez, ele e Soraya, se reencontrando várias vezes, às escondidas, no apartamento dela. Eram tardes inesquecíveis de amor, porém custavam muito. Depois de um tempo, ficou difícil arrumar desculpa pra dar a esposa, seu amigo editor às vezes ligava pra ele do nada, podia descobrir algo. Sem contar que poucos foram os passeios, já que ele tinha amigos demais e a esposa, mais ainda. Seria reconhecido na hora, numa fila de cinema ou num bar, acompanhado de uma negra belíssima, a estudos no Rio, num mestrado em Artes Cênicas, e a esposa cuspiria fogo, despertaria o anticristo, proclamaria o apocalipse. Não, o mundo devia continuar existindo na sua mais santa paz, e ele acabou arranjando uma estranha solução: comprou um apartamento que era um paraíso, à beira mar, 3 quartos, 1 suíte, 250m² da mais pura privacidade que o dinheiro podia comprar. Saiu caro, mas valeu a pena. Podiam se ver mais vezes que antes, já que os outros condôminos eram bastante discretos, alguns até muito reclusos. Ele só vivia para ela, e ela com ele. Sem contar que podiam tecer as mais tresloucadas fantasias eróticas sem se preocupar com vizinhos, a maioria só chegava em casa a noite e pra dormir. Soraya era um espetáculo na cama. Também, com o maquinário que ela possuía, difícil um homem não enlouquecer com esta mulher. E como era fogosa, meu Deus! A mulher era um furacão, uma tormenta de virar os maiores navios. Lembrou com um riso no canto da boca da tarde em que dormiu com a cabeça apoiada na bunda de Soraya, quanta fartura, como era durinha!

Mas nem tudo são flores, principalmente quando é caso de mulher. Mais ainda quando se trata de uma baiana que estava no Rio para cursar um mestrado em Artes Cênicas. O mestrado acabou e ela tinha que voltar para sua terra, Bahia querida, pros seus parentes, seu pais, irmãos e irmãs. “Não aguento mais a distância, e meu curso já acabou mesmo. Tenho que voltar. Você num fica triste comigo não, né?”. Lógico que não ficaria triste com ela! Porém, quando a deixou na ponte de embarque do aeroporto, dando um último beijo e um adeus, ficou triste sim, pois não a teria mais. Ela voltaria para a Bahia e lá conheceria um baiano honesto, trabalhador, que lhe fizesse feliz, daria os três filhos que ela deseja ter, e ela esqueceria de um certo escritor carioca infiel com quem teve um romance apimentado e casual de dois anos. O avião ergueu-se do chão e junto, levou a felicidade dele para a Bahia.

Agora, que não tinha Soraya, ele lembrou-se da vida que quase esquecera que tinha, de escritor, de casado, e tratou de arrumar o que estava desarrumado: vendeu os móveis do seu paraíso particular, disse a mulher que tinha uma surpresa para ela – um apartamento novo! Ela ficou besta, adorou, teceu todos os elogios ao marido, se mudaram no outro dia. Quanto ao livro que devia escrever, falou com o editor, a quem nem mesmo atendia mais os telefonemas, conversou, implorou, apelou para a velha amizade e conseguiu mais três meses.

Porém, nada lhe aparecia na cabeça. Tinha a incumbência de escrever um romance policial que já deveria estar terminado cinco meses antes, mas não conseguia pensar em nada. E ei-lo aqui, nesta noite regada a nicotina, adrenalina e lembranças baianas. Tirou os olhos da janela e voltou-se para a mesa de trabalho. Algo lhe surpreendeu. Tinha o livro pronto, a sua frente, todinho escrito, bastava um retoques aqui e ali, pronto, voilá! Não era bem o que o editor pedira, mas terá que ser isso.

E foi. O editor adorou, não esperava algo assim. Pediu um policial e terminou com um apimentado romance entre um complicado roteirista carioca e uma dançarina profissional baiana que veio para o Rio fazer um curso de aprimoramento na sua arte. Maravilhoso, fenomenal, best seller em menos de uma semana! “Valeu cada segundo de espera”, confessou-lhe o amigo editor. Sucesso. A mulher o parabenizava a todo instante, orgulhosa do marido que tinha. Terminou de pagar o apartamento, limpou toda e qualquer dívida anterior e ainda caiu nas graças do amigo editor, que lhe propôs novo contrato, para mais três livros, sem prazo para conclusão e uma polpuda participação nos lucros. Sem contar que semanas depois, acabou recebendo um e-mail – e ao menos nessas horas, ele sabia usar um computador – de uma certa “Dançarina_Baiana”, dizendo que adorou o livro e que, se ele quisesse escrever uma continuação, será bem-vindo em terras soteropolitanas quando assim desejar. Pois é, tudo em nome da arte…

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