segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Asterios Polyp, um desafio aos quadrinhos


Autor: David Mazzucchelli
Tradução: Daniel Pellizzari
Editora: Quadrinhos na Cia (selo)
Formato: 19,7 x 26 cm
344 páginas
Preço: R$ 63,00


A cada ano, uma nova graphic novel espetacular é lançada, rompendo os paradigmas (sejam temáticos, estéticos ou narrativos) do que se entende por história em quadrinhos. Neste ano, esse papel com certeza é reservado à Asterios Polyp, editado no Brasil pela competente Cia da Letras, através do selo Quadrinhos na Cia.

Asterios Polyp é um "arquiteto de papel", ou seja, ele é o cara que ficou famoso pelos seus trabalhos teóricos, não por suas obras concretizadas (até porque não teve uma sequer). O cara é pedante ao nível do insuportável, meticuloso, altivo, misógino, adora ser o centro do universo e um tanto possessivo. Um figura perfeita para um quadrinho, não acham?

Aos cinquenta anos, Asterios se vê despojado de tudo que tinha, material e sentimentalmente falando, e embarca numa viagem ao interior - mais de si mesmo do que em termos geográficos. Ao rever o pouco do passado que lhe sobrou e confrontado novas visões de mundo a que se submete, Asterios nos servirá como uma reflexão sobre nós mesmos e sobre nossa postura diante dos outros.


O que mais marca em Asterios Polyp é a forma criativa como a história é narrada, além de sua densidade. É quase um tratado sobre a psiquê das relações humanas pintado em traços simples, geométricos e monocromáticos. A linguagem gráfica usada no livro é praticamente uma tratado sobre os limites que os quadrinhos não impõem sobre autores e leitores. A maneira como Mazzucchelli retrata Asterios Polyp é envolvente, arrastando o leitor para uma leitura de cabo a rabo. É simplesmente impossível  abandonar o livro depois que se começa a lê-lo. Não por acaso, a obra ganhou os prêmios Eisner (melhor álbum, melhor autor e melhor letrista), Harvey (melhor álbum inédito, melhor história curta ou isolada, melhor letrista) e Angoulême (prêmio especial do júri).


Além das características de personalidade e dos desenhos extremamente criativos, Mazzucchelli usou de elementos quase sobrenaturais para narrar a vida desse arquiteto de papel. Para começar, ela é contada a partir do ponto de vista de Ignazio, o irmão gêmeo natimorto de Asterios! Fora isso, ainda temos as influências cármicas entre os personagens, como se eles precisassem uns dos outros naquele exato momento da história.


Se você só pudesse comprar um único quadrinho lançado este ano, eu recomendaria entusiasticamente que você escolhesse Asterios Polyp. Quantas vezes voê teria oportunidade de ler um quadrinho que mergulhasse tão profundamente nos significados dos relacionamentos, da arte, da família, das realizações humanas e, por que não, da vida?

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David Mazzucchelli - Ao lado de nomes como Frank Miller, Alan Moore e Neil Gaiman, o artista David Mazzucchelli foi um dos grandes responsáveis pela revolução nos quadrinhos no fim da década de 1980. Seu trabalho em séries como Demolidor: O homem sem medo e Batman: Ano 1 até hoje é referência do que foi feito de melhor no campo dos super-heróis.
Depois de anos publicando apenas pequenas histórias autorais, Mazzucchelli voltou-se para esta que é a mais ambiciosa de suas histórias. Asterios Polyp é ao mesmo tempo um estudo sobre as possibilidades narrativas dos quadrinhos, um livro de design, estética, filosofia e, por que não, humor. Tudo isso sem sacrificar a trama, tão envolvente quanto os desenhos do autor.


Wesley Prado é recifense, leonino, quase jornalista e nostálgico. Lembra da queda do Muro de Berlin. Simplesmente louco por quadrinhos, RPG, livros e cinema. Criador do Caixa da Memória, mas humilde demais para querer ser chamado de deus ou papai.

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