domingo, 20 de novembro de 2011

Um belo trabalho, e sem palhaçada

Se Selton Mello já era admirado pelo talento como ator, depois de O Palhaço, passará a sê-lo também como diretor


Sutil, doce, marcante. Apenas alguns adjetivos que definem muito bem O Palhaço (2011), segundo longa de Selton Mello na direção. Reunindo um precioso elenco numa história que beira a banalidade, mas com profundidade, o premiado ator consegue firmar-se ainda mais como um dos melhores de sua geração na dramaturgia brasileira.

O Palhaço conta a história de Benjamin (Selton Mello), também conhecido como o palhaço Pangaré, que junto com seu pai Valdemar, o Puro-Sangue (Paulo José), fazem a graça nas apresentações do Circo Esperança, pertencente a Valdemar. O problema é que Benjamin está em crise, achando-se sem graça, seu ofício não apresentando mais o menor sentido. Nessa tour de force para recuperar sua autoconfiança, Selton Mello nos apresenta um filme cuja sutileza é brilhante e envolvente.

Tudo começa na sua quase ausência de cidadania. Benjamin só tem como documento uma certidão de nascimento surrada, com a qual não consegue nem comprar um simples ventilador - cuja serventia na obra vai muito além do simples alívio para os dias quentes. A busca pelo ventilador não serve senão como uma bela metáfora para a busca de um reconhecimento, uma valorização de si mesmo perante a sociedade.


Para isso, ele precisará cortar os laços com aquilo que mais o incomoda - o circo e a profissão de palhaço - o que gera uma das mais belas cenas do filme, graças à direção de fotografia de Adrian Teijido, que trabalhou nas mini-séries A Pedra do Reino e Capitu. Os poderosos closes, unidos ao uso inteligente do contraste claro-escuro, gera uma sensação de perda e desolação tão grande que não há como não se emocionar. Essa cena termina de forma brilhante, num enquadramento focando a sombra de Benjamim, fechando com primor a narração dramática.

Selton Mello, como sempre, cumpre muito bem o seu papel, embora o estado forever alone de seu personagem seja irritante em alguns trechos. A figura do palhaço triste é um clássico (talvez um dos mais recentes a trabalhar esse arquétipo foi Balada do Amor e do Ódio, Álex de la Iglesia, mas de forma psicopática). É um ícone importante na construção da figura do palhaço. A velha oposição entre o dever do riso e o riso do dever. ("Eu faço o povo rir, mas quem é que vai me fazer rir?", indaga Benjamin num determinado momento de sua crise).

A participação - quase uma homenagem - de nomes como Paulo José, Jorge Loredo (famoso pelo seu personagem Zé Bonitinho, d'A Praça é Nossa) e Moacy Franco acrescenta não só o quilate de pessoas de tão larga experiência e talento, mas também aquela sensação da oportunidade única de assistir uma reunião tão oportuna. Em tempos em que o circo, assim como os artistas mais velhos, é cada vez mais uma tradição em vias de esquecimento, ter nomes como esses no elenco só aumenta o valor d'O Palhaço.


O filme também dá espaço para novos talentos, como Giselle Motta, que interpreta a dançarina Lola e já trabalhou em circo, e Larissa Manoela, no papel da cativante Guilhermina. Ambas são donas de uma expressividade fantástica, embora tal quesito transborde de forma mais notável na pequena paranaense de apenas oito anos. Percebe-se uma inteligência na direção de Selton Mello, ao trabalhar mais os olhares e expressões faciais das duas atrizes do que outros quesitos onde ambas poderiam se perder facilmente. Lola é beleza, lascívia, astúcia, enquanto Guilhermina é pureza, inocência

Na busca pelo self perdido de Benjamin, O Palhaço nos mostra mais que um determinismo pessoal; vai além, ao mostrar que a felicidade está mais próxima do que costumamos pensar, e que nossas inquietações muitas vezes se mostram fúteis, porém necessárias ao nosso crescimento. Que venham mais filmes sob a batuta de Selton.

O Palhaço
Nota: 7.9


Wesley Prado é recifense, leonino, quase jornalista e nostálgico. Lembra da queda do Muro de Berlin. Simplesmente louco por quadrinhos, RPG, livros e cinema. Criador do Caixa da Memória, mas humilde demais para querer ser chamado de deus ou papai.

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